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Revista Luz & Cena
Lugar da Verdade - Enrico De Paoli
Neste espaço, Enrico De Paoli fala de suas experiências e histórias em engenharia de música, estúdios e shows.
Fala também do mercado musical e fonográfico e de suas tecnologias.
Listando posts com a tag Lugar da Verdade.
Postado por Enrico De Paoli em 08/09/2012 às 22:49
E o jeito de fazer discos não é uma exceção
Demorou certo tempo até que surgisse o famoso sonho de levar o computador a entrar na engenharia de música (bem, e muitos anos mais para inventarem o tal computador!). Mas quando ele ingressou no estúdio, virou uma festa. Ele chegou com alguma timidez, para não dizer incapacidade. No início, os computadores somente gravavam MIDI. A primeira vez que vi um Mac gravando e reproduzindo áudio foi simplesmente emocionante! E eu pensei: "um dia os estúdios não terão mais mesas.". Demorou até os sistemas de gravação em computador ficarem com capacidade o suficiente para abandonarmos as fitas de gravação, mas este dia chegou, e ficamos com os Macs "voltando" áudio nos canais das mesas.

Não existia processamento suficiente para abrirmos plug-ins em todos os canais, e nem o som dos plug-ins era lá essas coisas. Isso seria um sonho, e este sonho, sim, foi realizado. Temos MacBooks rodando Pro Tools com plug-ins em todos os canais. O áudio soa ótimo e os plug-ins também. Cabe dentro de uma mochila pequena. Isso pra não dizer onde já estamos rapidamente chegando com os iPads. E, agora, qual o sonho de todo mundo? Ter uma mesa analógica clássica, pré-amps valvulados e compressores com botões enormes!

Vamos lá: faz realmente alguma diferença? Que pergunta complicada e que resposta delicada! Vamos começar por algumas vantagens da nossa atual era tecnológica. Para início de conversa, antigamente só gravava disco quem tinha a enorme sorte de ser contratado por uma gravadora, e para ser engenheiro de música, tinha que. nem eu sei! A profissão era desconhecida! Hoje, qualquer pessoa pode comprar um notebook e gravar um disco (às vezes, isso pode não ser tão bom...). Antes, um disco era feito em períodos de horas alugadas de um estúdio. Era caríssimo e depois que você saía entrava um outro cliente, que e mexia em todas as suas regulagens e você nunca mais voltaria naquela mix, caso precisasse. Hoje você grava quando quiser e onde quiser. Mas e o som?

Um Amplitube substitui um amplificador Fender, uma sala maravilhosa e um Neumann M49? Digamos que o som do simulador é inacreditável, mas as milhares de variantes que se consegue com o real são únicas. Agora, se você não tiver o amp Fender, a sala maravilhosa e o M49, com certeza terá um melhor timbre no Amplitube do que no home studio do seu vizinho. E os equalizadores? Um Pultec, por exemplo. As válvulas estão em alta há um bom tempo. Não sei o que acontece com valvulados. Devem ser sexy, pois são realmente desejados. O mais curioso é que os dois pré-amps mais famosos da história, Neve e os API, não são valvulados. O que acontece é que a grande característica do som de um valvulado vem mais do transformador de entrada do que da válvula em si. E a maioria dos equipamentos valvulados (caros) têm bons transformadores em seus designs.

Pois bem, e o que isso tem a ver com os plug-ins? Quem é melhor? Quando o áudio passa por esses transformadores ele é muito modificado. Sim, um famoso Neve, por exemplo, causa uma mudança tão radical no som que ele não seria indicado para uma gravação de cordas que pede uma sonoridade natural e transparente. No entanto, todas as variações, cores, reações que um Neve tem ao receber as mais variadas nuances de música não são tão simples de simular. E tem mais: além da impedância do pré-amp alterar o som lá dentro do microfone, estes transformadores dentro dos prés emitem harmônicos bem diferentes quando alimentados com muito ganho, causando até mesmo uma compressão no áudio. Sim: muitos equipamentos somente em ter o áudio passando por eles com um certo ganho não apenas respondem com mais harmônicos, engordando o som, como também o comprimem, causando aquela sensação de que tudo está mais alto, gordo, no lugar, com os sons todos parecendo mais um único disco. Ou seja, tudo aquilo que a gente busca quando está mixando uma música dentro do computador.

Vale lembrar que cada equipamento causa isso tudo de forma diferente. Se não fosse assim, só existiria um único compressor, um único pré-amp e um único equalizador. E se colocássemos, digamos, 6 dB em 1 kHz em dois Eqs, ambos nos dariam o mesmo resultado. E não é esse o caso. Cada eletrônica reage de forma diferente à quantidade de ganho passando por ela e de acordo com as características do áudio que por ali passa e é processado. Isso tudo torna o plug-in pior? Não. Ele oferece mil vantagens, como preço, tamanho, recall, automação, estabilidade no timbre, quantidade disponível por música etc., mas não tem como emular toda e qualquer situação que um equipamento real geraria.

Se alguém disser ao ouvir uma música no rádio que aquele Eq da voz é plug-in ou real, creio que a afirmação não será feita com tanta certeza, mas pode ser que, no todo, note-se uma mix com um outro resultado. Absolutamente melhor? Não. Absolutamente diferente? Muito possível. Mas não se preocupem: essa insatisfação que faz com que sejamos "do contra" e queiramos os equipamentos todos de volta justamente quando o computador passa a dar conta de tudo não é um privilégio dos engenheiros de música. As canetas eram tinteiro e os relógios eram mecânicos, e eram caríssimos. Inventaram canetas descartáveis e relógios de bateria, mas estes não têm a menor graça!

Bons sons, quentes e cheios de harmônicos (se assim combinarem com a música), nos botões ou nos mouses!

Enrico De Paoli é engenheiro de música. Mixa e masteriza em seu Incrível Mundo Studio e soma classic & analog. Trabalhos recentes incluem Ária, de Djavan, Vodka Smirnoff (campanha mundial) e Jorge Vercilo. Conheça também o treinamento Mix Secrets. Site: www.EnricoDePaoli.com.
Postado por Enrico De Paoli em 01/10/2011 às 12:16
Costumo dizer que os equipamentos não valem o que custam. Bem, não é exatamente assim... Digo, por exemplo, que as diferenças entre um Pro Tools LE e um Pro Tools HD não correspondem à diferença entre os preços deles, ao passo que a diferença entre o preço de um pré-amp de microfone Behringer e de um Neve não equivale à diferença entre o som de cada um.

Sim, os equipamentos melhores são melhores, mas talvez não tão melhores assim. Se há casos em que as diferenças são até imperceptíveis, há ainda aqueles em que o equipamento mais caro pode simplesmente não agradar. Lembre-se sempre de que estamos lidando com música - um mix de ciência exata e inexata. Por isso, em alguns outros casos, um equipamento menos sofisticado pode gerar um timbre com mais personalidade, agradando em cheio ao usuário.

Bom, sendo assim, para que comprar equipamentos mais caros? Vamos por partes. Em primeiro lugar, devemos adquirir o que faz bem aos nossos ouvidos. Ponto final. Porém, aqui vai o ponto chave: assim como um canal "solado" em uma mix não mostra o que ele representa quando tocado junto com os outros instrumentos, em um arsenal de equipamentos a grande diferença está na soma das pequenas diferenças e em como um item interage com os outros. Vou citar um exemplo.

Outro dia, em um estúdio, conheci a nova SSL Matrix. A famosa fábrica das mesas milionárias inteligentemente se adaptou aos novos mercados e agora está fabricando mesas menores, para produtores e engenheiros independentes, home studios e estúdios particulares de alta classe. Então, no estúdio onde eu me encontrava, abrimos uma sessão e ouvi mesma somada no Pro Tools e na mesa. Não acreditei na diferença: praticamente nenhuma! Mas como assim? Não é possível!

Fiz vários testes comparativos, vários A/B, e, novamente, considerando o valor investido (e a beleza que eu via à minha frente), achei minúscula (ou nula) a diferença. Não me contentei e conferi vários outros testes online para tentar entender o ocorrido, o que aconteceu quando recentemente fui aos EUA abrir umas mixagens de um disco que mixei em uma mesa SSL analógica (falarei disso no próximo mês).

A diferença no resultado final do disco foi imensa. Mas peraí? As duas eram SSL analógicas, com teoricamente o mesmo sistema de soma e circuito analógico. Pois é... A diferença nem sempre está em uma "mudancinha", mas na soma delas.

Fazendo uma analogia, quando equalizamos um track ou uma master, se aumentamos 0.2 dB em 3k15 Hz ouvimos pouca ou nenhuma diferença. Bem, claro que ouvimos, mas, convenhamos: não estou falando de 5 decibéis. Já se aumentamos 0.2 dB em 3k15 Hz e diminuímos 0.2 dB em 1k6 Hz, a diferença entre essas regiões vizinhas passa a ser bem maior aos nossos ouvidos. Eles não só estão ouvindo mais 3k15, como também estão ouvindo menos ainda da frequência vizinha (1k6 Hz), que nosso cérebro tinha como referência para julgar o 3k15. Esse é o ponto!

Então, se seguimos com nossa "equalização-mais-do-que-sutil" em algumas frequências, quando finalmente desligamos o equalizador para comparar com o que tínhamos antes, a diferença é um mundo. Bem mais do que 0.2 dB.

Nem sempre 2 + 2 = 4, entenderam? Tá dado o recado!

Boas mixes, boas escolhas e bons resultados para todos.

INSERIR O CURRÍCULO ABAIXO
Enrico De Paoli é engenheiro de música. Mixa e masteriza em seu estúdio híbrido analógico-digital Incrível Mundo. Seus créditos mais conhecidos são Ray Charles e Djavan. Site: www.EnricoDePaoli.com
Postado por Enrico de Paoli em 29/02/2008 às 14:57
Há alguns longos e rápidos anos, tenho tido a honra de fechar as edições da M&T. O Lugar da Verdade, ao contrário do que pode parecer, não sugere que tudo dito aqui seja o certo. Este nome foi escolhido enquanto eu lia um livro de história egípcia, do escritor francês Christian Jacq. O livro contava sobre um povoado onde apenas 32 dos artesãos mais prendados e apaixonados por pintura eram escolhidos para decorarem as eternas tumbas dos faraós.

Para ser um artesão neste povoado, não existia uma regra específica. Eles diziam que em dado momento, o verdadeiro artesão sentia que era sua vez, e recebia um "chamado". Isso acontecia quando a paixão pelo perfeccionismo e autocrítica se tornavam definitivamente embedados em suas vidas.

Não existia salário. Em compensação, nada faltava a eles. Eram recompensados com uma vida farta, segura e completa. Digo completa justamente porque eles não tinham um emprego. Tinham um sonho em andamento. Tinham suas artes eternizadas e reconhecidas, em primeiro lugar pelos próprios, e imagino eu que quem lê esta revista, e chega até esta página, sabe bem do que estou falando. O nome desse povoado era Lugar da Verdade.

Nestes longos anos, aqui falamos de muitos assuntos. Alguns técnicos, outros mercadológicos, alguns românticos e vários sem uma classificação específica, simplesmente como se estivéssemos batendo papo numa mesa de bar (ou no hall de um estúdio).

Neste mês me aconteceu uma infeliz falta de assunto. Como um primeiro encontro que dá errado... Um olha pra o outro e, por incrível que pareça, não é possível que nada venha em mente pra ser conversado. De repente me ocorreu uma sensação inversa (não no tal primeiro encontro.. foi só um exemplo!): como é curioso a gente normalmente ter tanto pra falar, de um assunto invisível e não palpável! Muitas vezes não estamos nem falando de música, mas de timbre, de som. Textura? Cor? Peso? Onde vocês tão vendo que o som é nervoso? Doce? Francamente!

Dá pra ir mais fundo (ou mais longe, depende do referencial!) nesse monte de absurdos. Já notaram que as orelhas de todo mundo são radicalmente diferentes? Dito isso, convenhamos que é impossível saber como outra pessoa ouve. O que eu escuto é o mesmo que ela? Muito provavelmente não.

Não é possível que projetos de orelhas tão radicalmente diferentes resultem em timbres idênticos. E, dito isso, pra que exatamente ficamos noites em claro experimentando se o timbre do violão de uma música tá com, digamos, peso suficiente, sem deixar de ser doce? Ok, não estamos vendo no estúdio, mas ao menos estamos ouvindo. E aqui? Quando eu descrevo doce, é o mesmo doce que você ouve? Eu lá sei quanto de açúcar você põe no seu café!

Se vocês ainda estiverem aí compartilhando dessa verdadeira paranóia, dá pra ir um pouquinho mais. longe. Sabemos que o kit orelhas e ouvidos é apenas a ferramenta física de captação das ondas sonoras. Mas eles sozinhos não nos fazem ouvir nada. Esses transdutores precisam estar conectados a um processador. Nesse sistema, o chamamos de cérebro. Amigo, se as orelhas de cada um são diferentes, o que temos a dizer dos cérebros?

Mesmo cientes de que sabemos muito pouco sobre o tal funcionamento do cérebro perto de sua capacidade total, ainda assim, alguns seres (com seus cérebros ainda mais diferentes do que os nossos) conseguiram descobrir alguns processamentos que vieram de fábrica com a gente. Dois loucos-hiperdotados que podem ser citados são o alemão Helmut Haas e o americano Harvey Fletcher.

O conhecido Efeito Haas, também chamado de efeito da precedência, descreve como o cérebro reage quando ouve dois sons idênticos originados de duas fontes em distâncias diferentes do ouvinte. A fonte que chega primeiro, com até 30 ms de distância de tempo da segunda, será interpretada pelo cérebro como sendo mais alta em volume, mesmo que seja até 10dB mais baixa! Assim como os dois olhos servem para nos dar senso de profundidade, os dois ouvidos (em conjunto com o cérebro, claro) nos ajudam a identificar a exata posição da fonte sonora.

Naturalmente, essa matemática não vem dos ouvidos e sim dos plug-ins da nossa CPU instalada na fábrica: cérebro. O Efeito Fletcher descreve a sensação de as freqüências (afinação) baixarem quando o nível sonoro sobe significativamente. Uma grande variação de volume pode produzir a impressão de que a afinação baixou de meio tom.

Mais uma vez falamos de coisas absolutamente invisíveis e, quem sabe, não absolutas de ouvinte pra ouvinte. Teoricamente difíceis de visualizar, e curiosamente fáceis de entender pra quem é artesão do som. Bem-vindos, mais uma vez, ao Lugar da Verdade.

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Enrico De Paoli mixa e masteriza em seu Incrível Mundo Studio. Gravações in-loco sob consulta. Projetos recentes: Djavan e Glaucia Nasser. cartas@enricodepaoli.com
Postado por Enrico de Paoli em 20/07/2007 às 09:39
Então um cliente nos encomenda uma mixagem. Após conversar um pouco, debater, ouvir referências, pegamos aquele monte de arquivos de áudio e montamos uma sessão. Talvez o cliente já te envie uma sessão começada, ou seja, o que ele vinha ouvindo até você se tornar responsável pela mix. Isso pode parecer falta de autonomia, mas de fato é uma ótima cola pra você ter a chance de saber como ele se acostumou com aquela música. Antigamente, quando as mixes eram feitas em mesas, com faders manuais, botões e, acreditem, sem mouse, era comum o mixer pedir ao artista/produtor um cassete com a cópia de monitor, ou a mixagem que, até então, era a que ele usava pra ouvir a música em questão.

Foi dada a largada... mixagem em andamento. O que fazer? Pra onde ir? O que ouvir primeiro? Devemos solar cada canal, e tratar deles independentemente, ou ir ouvindo todo mundo junto e ajustando um para o outro. Bem, só essa dúvida já seria suficiente pra encher páginas da M&T, e o pior é que isso não é tudo... Assim, mais uma vez a minha resposta é: não há regras. E essa resposta vai fazer sentido no decorrer.

Recentemente fui contratado para mixar uma faixa de uma cantora independente americana. A tecnologia permitiu que ela enviasse a sessão dela inteira para um servidor e eu baixasse diretamente pra o meu computador. Ouvi vários trabalhos dela e as referências indicadas. E, como não podia deixar de ser, a música que eu mixaria não tinha nada a ver com nada daquilo que eu tava ouvindo. A bateria estava muito mal gravada; em compensação, as vozes eram primorosas, e o melhor: a canção, ótima.

Então logo escolhi um caminho: que tal uma mix com a bateria bem lo-fi, hiper comprimida, chegando a ser... estranha? Tudo isso contrastava bem com as vozes limpas e presentes, a ponto de eu conseguir brincar com elas várias vezes totalmente secas e na cara durante a música. E não faltaram oportunidades pra automatizar reverbs e delays, e a mix foi se formando. Aliás, parece que cada coisa que fazemos em uma mix nos faz ter idéia para outras. Mas é uma faca de dois gumes: nem sempre as idéias que a gente vai tendo nos levam para o caminho que queremos seguir, ou melhor: o caminho que a música quer seguir (ou que o cliente quer que a gente siga!).

E quando terminar? Realmente, com a quantidade de possibilidades que um sistema de mixagem hoje nos oferece, é fácil não acabarmos uma mix nunca mais na vida! Imagino que a hora de acabar se ascende quando acontecem duas coisas: as idéias começam a parar de surgir e, à medida que vamos ouvindo a faixa, ela soa cada vez mais acabada, redonda, sem ter o que fazer.

Isso naturalmente foi acontecendo com a minha mix e, finalmente, eu a enviei pra ela. Para minha surpresa, ela não gostou da mix! Mas por quê? Eu sou ruim? E agora? Fui despedido? Afinal, se eu soubesse fazer melhor do que aquilo, por que não fiz em primeiro lugar? A resposta é bem simples. Não fiz, simplesmente, porque não tive a idéia.

Há algum tempo atrás, eu me apegava às minhas mixes e consequentemente, às minhas idéias com uma certeza, no mínimo, limitadora. Com o tempo, fui aprendendo que, por mais experiência que eu possa ter, nada substitui experimentar. Podemos ter muito tempo atrás dos faders, mas música é tão complexo que tem coisas que têm tudo pra soar mal e soam bem, e vice-versa. Enfim... ela não gostou da mix, dizendo delicadamente que estava muito diferente do resto da cara do disco, mas adorou as vozes e me pediu pra enviar somente a voz e os efeitos, que seria então encaixada em uma mix dela.

Nessa hora, em vez de lamentar a minha demissão, aproveitei para imaginar mil outros caminhos pra aquela música. Fiz bom uso da informação de que ela queria um CD com "uma cara específica" e que já gostava de algumas mixes que tinha. Partí para um novo caminho e fui chegando a lugares que, não fosse o incidente, não imaginaria pra essa música. E, quanto mais eu me desprendia da mix antiga, mais abria espaço para me deixar evoluir na nova. Até que, como disse antes, as idéias começaram a acabar, e a mix foi tomando forma e eu começando a exergar, ou melhor, a ouvir, que estava terminando. Hora de enviar a mix. Resultado: o trabalho, que eu já havia cortado da minha lista de clientes, voltou pra mim. Ela adorou a mix, e eu também. De fato, era muito melhor do que a anterior.

Eu recebo diversos emails perguntando sobre vários aspectos técnicos de uma mixagem, dúvidas de equipamentos, compressores, etc. Mas nunca alguém me perguntou quando uma mix acaba, e quando acaba, se é o melhor para aquela música. Isso na verdade será para sempre uma daquelas perguntas sem respostas. Porém, sabendo disso, o mínimo que podemos fazer é respeitar o fato de que, eventualmente, uma idéia nova de alguém pode despertar em nós mil outras que, sem aquela, não existiriam. Que não sejam mil: uma nova idéia pode ser o suficiente pra uma grande mix.

Enrico De Paoli é engenheiro de gravação, mixagem e masterização. Projetos recentes: Titi Walter, Flávio Medeiros e Cheryl Engelhardt.  Escreva para cartas@enricodepaoli.com
Postado por Enrico de Paoli em 01/02/2007 às 00:00
De fato, compressores e limiters estão entre os temas mais falados na história da engenharia de música. E não é pra menos. Eles fazem muito mais do que limitar o volume de um instrumento ou programa musical. Já acompanhamos diversos designs e topologias nos limitadores de áudio, e o mais curioso é que vários modelos se tornaram ultrapassados tecnologicamente, mas jamais foram substituídos sonicamente. Algumas falhas ou limitações tecnológicas dos designs curiosamente geravam um resultado desejado no som.

Estamos vivenciando um momento virtual-retrô. A revolução virtual nos possibilita brincar facilmente com modelos que antes só eram accessíveis em estúdios multimilionários. Essa facilidade tem feito com que novos engenheiros tenham redescoberto a arte de comprimir sons, com compressores antigos - reais ou virtuais.

Exemplos de compressores ou limitadores imortais incluem o Teletronix LA-2A, que detém o título de compressor ótico-valvulado mais famoso da história. Basicamente, o circuito de compressão é trigado por uma luz e uma foto-célula. Uma característica dos compressores ópticos é o ataque relativamente lento e inerente ao design dessa célula, aliado a um release relativamente rápido se pouco excitado, e lento se bombardeado com amplitude de voltagem, ou música.

O motivo dessa característica se assemelha à memória que uma fonte luminosa causa em nossas vistas, quando submetidas a sucessivos ataques luminosos. Esse modelo é representado no mundo virtual de hoje pelo Bombfactory BF2A. Seu sucessor óptico-FET (field effect transistor), que utiliza o mesmo circuito óptico, o LA-3A é emulado virtualmente pelo BF3A. Note que um hábito comum é passar o áudio por essas maravilhas mesmo que deixemos o botão de compressão no mínimo, apenas para deixar a eletrônica adicionar suas características.

O mais incrível é que o mesmo se aplica ao plug-in. A simplicidade do design externo com apenas dois botões é apenas um espelho do que existe dentro dessas caixas mágicas, que servem tão bem para musicalmente controlar o volume de baixos e vozes. Embaixo do capô, cada um desses dois botões controla um amplificador. Um alimenta o circuito da luz e o outro amplifica a saída, a fim de resgatar o volume do áudio comprimido.

Seguindo a linha do tempo e evolução dos designs, a Urei incorporou em seu famoso LA-4 o circuito óptico usando um LED e um circuito para detectar sua luminosidade, no lugar da antiga luz e foto-célula. Outro hit, e certamente o compressor vintage mais caro da atualidade, é o Fairchild. Com sua topologia variable-mu, em que a compressão ocorre na válvula, o attack é rápido e fixo, e o release variável em seis presets. A característica mais legal do Fairchild está presente em sua versão estéreo, que permite que você comprima separadamente tudo o que é mono e o que é estéreo no programa.

O Universal Audio (depois Urei) 1176 foi o mais popular compressor FET. Usado nas mais diversas aplicações, de vocais a baterias, ele é consideravelmente mais rápido do que os ópticos. Uma característica que virou parte de seus sons é a distorção típica dos designs FET que ocorre quando sinais muito quentes acabam por modular o circuito de compressão. Uma das versões plug-in disponíveis do 1176 se chama BF76.

Outra tecnologia é a mais recente VCA (voltage controlled amplifier). Os VCAs presentes em vários cantos dos estúdios, como em sintetizadores e nos primeiros sistemas de automação de consoles, também passaram a estrelar nos compressores. Porém, os VCAs demoraram para ter um som agradável. O excesso de sinal pode causar alguma distorção e a compressão exagerada pode soar abafada e sem vida. Porém, os VCAs são rápidos, estáveis e resistentes a temperatura e idade, e funcionam bastante linearmente em ampla faixa dinâmica.

Fica bem claro que não existe o compressor certo. Brincar com essas eletrônicas ou seus emuladores ficou bem mais fácil. Porém, cuidado pra não usar demais. Uma música sem dinâmica pode ficar bem desagradável. Por isso vai mais uma bela dica: O PSP Vintage Warmer, um plug-in de compressão multi-banda, tem em seu painel o botão Mix. Com ele, você pode combinar quanto do som comprimido você quer combinar com o som virgem, não comprimido. Uma bela sacada. Mas todos os outros compressores não têm essa função; duplique o canal e aplique compressão em apenas um deles. Brinque com os faders até chegar à combinação desejada. Não esqueça de verificar o possível atraso que o plug-in causa no canal. Então, entre comprimir e não comprimir, fique com os dois!
Postado por Enrico de Paoli em 02/10/2006 às 00:00
Pois é, o que faz um engenheiro de som, mixer ou sound designer, numa página de revista técnica de áudio, falando de arranjo? Arranjo não seria assunto de músicos? Tá bem, em duas frases de artigo, já temos confusões e controvérsias suficientes...

Afinal de contas, quem é músico? Quem toca um instrumento é instrumentista e inevitavelmente músico. Agora, é totalmente possível alguém ser arranjador e não ser um instrumentista virtuoso. É possível ser um produtor de discos também, cheio de talento e musicalidade, dom de dirigir e tirar o máximo de cada um, sem tocar instrumentos.

Em contrapartida, um instrumentista pode ser virtuoso e saber pouco ou nada de arranjo e muito menos de produção fonográfica. Então, chego à conclusão de que há engenheiros de som que são músicos, sem necessariamente dominar um instrumento. Porém, conhecer os instrumentos, assim como conhecer música e arranjo, só tem a somar.

Ok, se eu estivesse ministrando uma palestra e agora perguntasse ao público "quantos já estavam fazendo uma mixagem e, ao levantar os faders da mesa, acharam que a música já soava automaticamente bem?", tenho certeza de que veria algumas poucas e felizes mãos ao alto. Por outro lado, se perguntasse quantos já tiveram que recomeçar uma mix do zero algumas vezes e, por mais que passassem horas na música, alguns canais ou instrumentos sempre soavam altos demais, sobrando, certamente veria no mínimo o dobro de mãos para cima. Bem, imagino que, se chegaram até aqui, devem estar interessados no porquê deste triste e trabalhoso fenômeno: arranjo.

A física e a música se cruzam o tempo inteiro. Notas são freqüências, que são ligadas a tempo. Tempo também representa ritmo e por aí vai. Não vou entrar em nada que seja, digamos, chato para este fim de revista. Já devo ter falado disso antes: antigamente, antes dos multi-pistas, a mixagem era feita pelo maestro. Violinos mais fortes, violas menos... Ou então, numa gravação ao vivo, o engenheiro ajudava a mixar os volumes através do posicionamento de microfones. Pois, para quem não imagina, volume (ou mixagem) também faz parte do arranjo.

Mas, quando temos um instrumento emitindo uma nota grave, que ocupa um grande espaço físico e musical, naquele momento não há muito espaço de sobra para outros eventos graves ou de baixa freqüência. Ao mesmo tempo, se temos instrumentos preenchendo totalmente em tempo e volume as regiões médias, como guitarras, gaitas, cordas, metais, não sobram muito espaços para... o cantor. A mix vira um prato de restaurante a quilo, onde não sentimos o gosto de nada. E agora?

Fomos contratados para mixar e não pra dar palpite no arranjo. Pois bem, este curto artigo serve para os que fazem os arranjos e têm o apoio da tecnologia do home studio dos dias de hoje, com infinitos canais. Que vocês usem apenas os canais necessários e em boas horas (da música!).

Bem, para os que têm que salvar músicas super-arranjadas... vocês têm algumas saídas: escolher o que mais amarra o arranjo da música e usar aquele instrumento como pilar de sustentação. Ou escolher momentos: digamos, na intro a guitarra predomina, no refrão o piano... Outro bom truque é, ao aparecer um novo elemento, que ele surja mais alto do que o normal e que depois seja bem recolhido. Dessa forma, o ouvinte inconscientemente aprende aquele instrumento, e ele será ouvido até o fim da música (ou do disco) sem que atrapalhe outros de freqüências similares. E, por fim, favor não deixarem pra encaixar a voz no fim. Pode ser uma boa prática, em músicas cheias, mixar a voz pra bateria e encaixar os outros instrumentos depois. Salve-se quem puder!
Postado por Enrico de Paoli em 01/07/2006 às 00:00
Vários de vocês devem conhecer a famosa revista de áudio americana Mix. Aquela que sempre teve capas glamourosas, com fotos de estúdios multimilionários de grande porte, que pareciam mais saguões de hotéis cinco estrelas do que salas de mixagem. Não que eu não goste. Mas não é esse o ponto.

Essa mesma revista neste mês apresenta uma capa em tonalidade verde, o logotipo da revista em amarelo, e bem grande em branco a frase "CADÊ O DINHEIRO?".  Engraçado, não é típico para americanos assumirem crise ou fracasso. Com o que, diga-se de passagem, eu concordo. Acho que a crise começa na cabeça e prolifera na propaganda. Mas, se eles estão falando em alto e bom tom, na matéria de capa da possivelmente maior revista de áudio profissional do mundo, é porque realmente eles não sabem onde ele está. O dinheiro.

Porém, ainda com tudo isso, a revista traz vários artigos baseados em soluções. Em dicas, oportunidades e, acima de tudo, otimismo. Como também é típico deles. E eu definitivamente compartilho da mesma filosofia e estilo de vida.

Para se ter uma idéia dos assuntos, os títulos das matérias são: Cadê o dinheiro? (capa), Sobrevivência do estúdio, Para onde a música vai?, O engenheiro versátil, Créditos sim, quando merecidos, Ferramentas do momento, Sessões à distância, Todo veículo a todo instante (difícil de interpretar o título, mas fala das novas tendências de distribuir música).

A seção que fala de equipamentos desta vez está focada em hardware. Como tudo é cíclico, companhias re-investem em equipamentos não piratáveis, porém que se encaixam perfeitamente no mercado dos pequenos estúdios independentes. Tanto em uso, quanto em cifras. Mais uma reportagenzinha testando o Pro Tools 7, que praticamente todos nós podemos ter, e mais uma placa FireWire (ainda não temos o suficiente delas.), desta vez fabricada pela Focusrite, ainda usando heranças de Rupert Neve, ao menos no nome. (Para quem não sabe, a Focusrite foi fundada por Mr. Rupert).  A sessão de ao vivo, cada vez mais gigante. Shows não param. Afinal, não são pirateáveis e não precisam de um novo formato de mercado, como a música gravada.

Existe uma seção que fala das capitais norte-americanas das gravações:

1. LA Grapevine (novidades do mercado em LA), que desta vez não anunciou nenhum grande estúdio falindo, mas falou que o Ocean Way comemora dez anos de lock-out  de uma de suas salas por um único engenheiro de mixagem. Pra mim, isso já é praticamente uma sociedade. não mais cliente. Ou seja, de volta àquela questão: o estúdio é ótimo quando você é seu melhor cliente.

2. New York Metro (as últimas do mercado nova-iorquino), também otimista, contando sobre um estúdio que abriu as portas em 2005 e já está ocupado até 2007, devido ao que o dono classifica como qualidade, serviço, experiência de mercado e diversificação. E ainda fala sobre as prioridades que artistas, produtores e investidores têm com o dinheiro no mercado hoje. Raros serão os casos de dinheiro investido em gravações. Algum ainda vai para mixagem, porém com muitos dando cabeçadas mixando em casa mesmo e (talvez erroneamente) deixando para "consertar na master", que antes era apenas o processo de preparar a música para a mídia fabricada, e hoje é o estágio em que se consertam as calamidades tímbricas cometidas no processo econômico.

Porém, analisando tudo isso, o que ocorre no momento é bom. No meio da tão comentada gigantesca crise, vemos que o mercado independente nunca esteve tão quente. Parece que, quanto menos gravadoras e discos grandes, mais projetos menores existem. Fácil de entender. Com um computador em casa, e boas idéias, hoje se pode fazer um disco. Talvez esse disco ainda não venda tanto, mas ele existe. Num mercado como esse, que cada vez mais artistas e estúdios têm, não tenho como falar em crise.

O Brasil é um dos maiores países do mundo em número de micro-empresas e profissionais liberais. Enquanto as gravadoras gigantes deixam de ser tão gigantes assim, novos milhares de computadores surgem em quartos de dormir, com novos trabalhos gravados.

As idéias estão se formando. O Brasil também é um dos maiores países internautas do mundo. Estão vendo a ligação? Os discos hoje não necessariamente servem apenas para serem vendidos. Eles divulgam a música e o trabalho do artista. Promovem shows e geram o maior patrimônio que um artista de qualquer tamanho pode ter: o fã. As idéias não param de surgir. Todas são boas (desde que não seja investir milhares de dólares em monitores, microfones, pré-amps e computadores para fazer música pra ringtones de celular!).

O que antes era nosso obstáculo - ter que ter milhões de dólares para ter um som decente com uma Neve ou SSL, ou rezar para arranjar um emprego como assistente num desses poucos estúdios, hoje não é mais. Definitivamente o momento é ótimo para o áudio no Brasil. E que boa coincidência as cores da capa da Mix.
Postado por Enrico de Paoli em 09/06/2006 às 00:00
É comum fazermos tanto de alguma coisa a ponto de ela se tornar automática, parte de nossos cotidianos. Quando isso acontece, passamos a achar ingenuamente que todo mundo sabe fazer aquilo ou enxergar da mesma forma. Depois que comecei a escrever o Lugar da Verdade, minha interatividade com o mundo real aumentou, e a beleza das diferenças entre todos, assim como a possível troca se fez bem óbvia. Aliás, comecei a perceber essas variedades de estágios de aprendizado onde todos se encontram também, lá atrás, quando comecei a fazer palestras e workshops.

Tenho recebido muitas cartas. Todas interessantes. Algumas pela abundância de informação. Outras, com bons mp3 de trabalhos independentes. E outras interessantes pela perdição total, no bom sentido, dentro desse labirinto de tanta coisa que há para saber. Uma delas me chamou mais a atenção. O leitor disse que estava interessado em saber como funcionava o Incrível Mundo, e se eu podia enviar a ele uma amostra de uma música, antes e depois de mixada!

Tentei explicar que tal solicitação seria impossível de atender. O antes é muito vago. Mas ele educadamente insistiu. Mais uma vez, tentei mostrar que antes de ser mixada, a música é inaudível em aparelhos estéreo. Se ainda fosse antes de masterizar. Mas antes de mixar, os canais estão todos separados! Como poderia mandar isso a ele? Enfim, quando fiquei sem mais argumentos para convencê-lo de que enviar o antes seria impossível, usei meu bom senso e atendi a sua solicitação.

Abri uma sessão de uma mix que tinha feito recentemente. Desliguei todos os plug-ins, efeitos de periféricos externos, botei os pans no centro e faders no zero (nominal). Para que não ficasse uma mix surreal, dei um trato rapidíssimo, apenas para ficar decente, como faria se tivesse um minuto para fazer uma mixagem pra alguém gravar um solo (nos anos 80). Marquei um pouquinho antes do refrão até um pouquinho depois e mandei um bounce da mix. Depois abri minha master já mixada e finalizada, e fiz o bounce entre os exatos mesmos pontos. Converti pra mp3 e enviei a ele o antes e o depois. Confesso que nem eu tinha percebido quão grande tinha ficado a mix/master. Meu pai sempre dizia "som é comparação". Ele não deixava de ter razão !

Foi depois desse episódio que percebi que existe uma vasta quantidade de novos talentos estudando ou interessados em ingressar no áudio profissional no Brasil. Então vou fazer um breve resumo sobre as etapas de uma produção de um disco.

Seleção de repertório: a primeira e talvez mais importante das etapas. Nos dias de hoje, com tanta tecnologia, esqueceu-se que o motivo de toda essa tecnologia é a gravação de MÚSICAS. E esperamos que sejam músicas boas. Não se grava à toa. Não se grava por gravar. Não tá escrito em lugar nenhum quantas músicas tem que ter um CD. Então, grave o que vale a pena. Grave o que é bom, o que pertence e tem a ver com o seu trabalho. Se você só tem uma música incrível, não deixe ela pra lá porque você não tem outra. Grave só ela. Na minha opinião, é melhor um CD com uma incrível música que um CD com 12 músicas medíocres e das quais nem o artista gosta tanto. Quantos artistas de uma música só conhecemos... E porque só têm essa música boa eles não prestam? E se a música for ótima?

Concepção da gravação. Escolheu as músicas. E agora? Qual a sonoridade? Qual o estilo dos arranjos? Qual o orçamento? Pois é. Agora vamos ver onde vai ser gravado. Quais os instrumentos e tocados por quem. Em qual estúdio gravar. Hoje isso é mais raro: grava-se onde dá. Antigamente é que mudávamos de estúdios porque cada um era melhor pra uma tarefa e sonoridade.

Pré-Produção. Antigamente, essa etapa também era mais importante. Como os grandes estúdios eram muito caros, fazia-se toda a preparação dos arranjos numa pré-produção, normalmente em algum estúdio mais barato. Algumas, ou várias, dessas idéias gravadas muitas vezes podiam ser aproveitadas e usadas na gravação final. Hoje, a pré-produção ocorre no mesmo home studio em que o disco é feito. Então as etapas se unificaram.

Gravação de bases. Como o nome já diz, nessa fase é que gravamos os instrumentos de base. Para isso, precisamos de um estúdio com algum tamanho, para gravar a bateria enquanto o baterista ouve outros músicos tocando juntos para guiá-lo. Porém, se bem tocados e bem captados, muitas vezes pode ficar valendo o baixo, guitarra e teclados gravados durante a base (se o estúdio permitir tantos canais ao mesmo tempo).

Overdubs. Acho que nunca soube uma tradução pra isso. Os overdubs são feitos quando as bases estão gravadas e chamamos alguém para, digamos, gravar algo a mais, um solo de sax por exemplo. Ou um coro. Enfim, gravar outros instrumentos em cima de algo já gravado.

Edição. Essa etapa é relativamente nova no processo. Como os gravadores baseados em computador têm um poder de edição cada vez mais extraordinário, seja em copiar uma parte para outro lugar na música por exemplo, seja para afinar uma voz, editar pode ocorrer depois de cada pequena gravação de overdub.

Gravação de voz. Não deixa de ser um overdub. Talvez o mais importante em música pop. Antigamente existia aquele medonho dia de gravar a voz. Claro que pouquíssimos cantores conseguiam relaxar e ficar naturais com a pressão. Hoje é tudo muito mais fácil e sem regras. Com a tecnologia de gravar em computadores, se tornou mais viável ir gravando quando for dando vontade.

[Muito provavelmente terá agora a] Edição das vozes. É inteligente gravar muitos canais interrompendo pouco o cantor. Assim consegue-se mais fluência e naturalidade. O que tiver que editar e escolher, pode ser depois.'

Mixagem. Não sei se perceberam, mas até agora, os canais estão todos separados. Para ouvir essa faixa num aparelho de CD normal, precisamos fazer aqueles 32 ou mais canais virarem dois, estéreo (ou seis, se for Dolby digital 5.1). Grosso modo, isso é mixar. Portanto, como enviar a um cliente, uma música antes de mixá-la? Ainda falando de mixagem, talvez seja a mais complexa das etapas. Onde se precisa de calma, precisão, excelentes monitores de referência. Ótima sala. Antigamente mixar era para poucos. Nem todos tinham tantos equipamentos, reverbs, EQs, como hoje. Precisava-se de uma mesa grande, de som ótimo e com automação. Hoje, tudo isso existe dentro de um computador. Na mix também se conserta uma sílaba muito baixa ou uma caixa de bateria que ficou muito alta. Sem automação não existem mixes nos padrões de hoje.

Masterização. A master se tornou muito popular com as mixagens sendo feitas em qualquer lugar. Os timbres das mixes vinham sempre diferentes, inconstantes. Monitores desalinhados numa mixagem podem causar efeito inverso na mix. Por exemplo, monitores com pouco grave podem fazer com que você adicione mais grave numa mix, erroneamente (esse talvez seja o mais clássico de todos os erros). Então artistas independentes se apóiam naqueles ouvidos do engenheiro de masterização, para que ele e sua experiência dêem seu "toque final e confiável" no timbre.

Capa, prensagem, distribuição e vendas fogem um pouco dos nossos propósitos aqui.

Para muitos, isso tudo é o óbvio. Para outros, não tanto. Essa quantidade de home studios democratizou a produção de música e desenvolveu muita musicalidade nos fanáticos. Gerou novas etapas. Atrapalhou algumas profissões e criou outras. É importante conhecer as regras para poder quebrá-las. Assim, se você tiver UMA grande música, pode já gravá-la mixando. Ou usar a voz guia do dia das bases. Ou mixar em casa e masterizar fora. Ou mixar num grande estúdio. Ou nem mixar, porque a mix guia tá ótima. Esse papo não tem fim.

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Enrico De Paoli
tem trabalhado há muito anos com essas etapas. Hoje, no seu Incrível Mundo mixa e finaliza músicas iniciadas em todos os tipos de estúdios. de grandes salas a quartos improvisados. Consulte em
incrivelmundo@enricodepaoli.com. Cartas para cartas@enricodepaoli.com.
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