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Revista Luz & Cena
Neste espaço falaremos sobre áudio e acústica.
Será uma extensão da coluna publicada todos os meses na revista Áudio Música & Tecnologia. Aqui os leitores podem fazer comentários, tirar dúvidas e fazer sugestões.
Homestudio Reinventado: A Reverberação Penetrante e Fria do Forno
Postado por Omid Bürgin em 25/03/2013 - 22h11
OMiD Academia de Áudio. Ilustração: Ivan Silva
Re-amping Clássico de uma Guitarra na Paramount (OMiD Academia de Áudio. Ilustração: Ivan Silva)
Re-amping Clássico de uma Guitarra na Paramount
No último post, escrevi sobre a dependência da nova geração de técnicos aos equipamentos de áudio e como poderíamos aproveitar melhor das acústicas das nossas casas para conseguir criar sons e timbres originais e inovadores. O grande número de digital effects processors no mercado nos faz esquecer frequentemente que todos os estúdios de gravação tinham originalmente os tais eco chambers, usados para gerar reverberações e ecos naturalmente.

Junto com o primeiro exemplo, gostaria ainda de compartilhar um pouco da minha experiência de trabalho como Técnico de Som. Acredito que são estes pequenos acontecimentos nas nossas vidas que dão nosso norte, nos formando e muitas vezes modificando o nosso percurso. Espero que isso possa ajudá-lo em sua carreira.
Uma experiência que me influencia até hoje aconteceu na Paramount Recording Studios, onde trabalhei como técnico de som. Era uma produção de Hip-Hop, gênero que estava em ascensão no começo dos anos 90, salvando muitos estúdios da falência. Assim, passaram pela velha Paramount todos os tipos de 'Ice's', como Ice Cube, Ice-T ou Vanilla Ice, que deixaram muitas outras histórias para contar... :)

O que me impressionou foi essa sessão, que já se estendia noite adentro, na qual o produtor do projeto pediu para levar o sinal da guitarra para a cantina dos funcionários, para usá-lo como um 'insert' na gravação. Como técnico ainda bastante inexperiente e com minha mente jovem, fiquei pensando: "Puxa-vida! A Paramount tem todas as acústicas possíveis, como salas de pedras, salas revestidas de madeira, etc, além de todas as parafernálias de áudio que um técnico possa imaginar! Usar uma sala para 'pegar' a sua reverberação, tudo bem, mas logo a cantina dos funcionários???". A esta altura, provavelmente não preciso nem falar das várias paredes de periféricos que tínhamos. Só o Microphone Cabinet era uma viagem! Você se lembra quando, no filme Matrix I, Neo pediu armas, e os ármarios de armas não paravam de chegar? A impressão que eu tinha ao ver todos aqueles equipamentos do estúdio era algo assim!

Agora imagine a minha cara de besta quando o produtor pediu para 'preparar o forno'. Wow! What's cooking? Confesso que a essa hora já me batia uma certa fome! Aprendi então que isso significava tirar as grelhas do forno, deixa-lo aberto com um banquinho de madeira na frente e o amplificador de guitarra montado em cima. Depois, posicionar um microfone estrategicamente bem no centro do forno, com a cápsula virada para fora. Nos próximos 30 minutos da sessão, testávamos e alterávamos estas posições. O microfone usado era um Royer 121 ou 122 (mas um Shure 57 fará o trabalho!).

A ideia era fazer um re-amping, usando a sonoridade do forno como efeito! O processo de regravar um sinal já havia sido usado por compositores de música eletro-acústica, como Pierre Schaeffer, nos anos 1930 e 1940 ou Karlheinz Stockhausen e Edgard Varèse depois nos anos 50 e 60, ambos pioneiros na música eletrônica experimental. Quem provavelmente popularizou esta técnica foi Roger Nichols (técnico de áudio do Steely Dan, John Denver, Beach Boys, Stevie Wonder, Frank Zappa, etc). Em 1970, o legendário Phil Spector remasterizou Let it Be, dos Beatles, passando o sinal seco da guitarra por um amplifcador. Exemplos históricos não faltam! A prática é bastante comum no vocabulário de um produtor hoje, porque aumenta as possibilidades sonoras tremendamente, criando novos timbres. E foi exatamente essa a busca pelo Santo Graal da qual participei às duas da manhã na Paramount. 

Essa experiência foi tão marcante, que eventualmente me levou a querer escrever esta série de posts. Como diretor de uma escola de áudio, procuro incentivar os alunos a apreciarem as coisas mais básicas, orgânicas e naturais, como as acústicas do nosso dia-a-dia. Não se deixe cegar pelos jargões sofisticados dos plugins e todo o marketing ao seu redor. Você já reparou que as produções de hoje soam todas meio iguais? Por que será?

Então, vamos lá: para isso funcionar, você deve mandar o sinal seco da mesa para o amplificador (use um Aux Send ou Direct Out), microfonar o som da maneira descrita acima, e enviá-lo via um mic pre para um outro canal da mesa. Este novo sinal da re-amplificação será usado como efeito, geralmente mixado abaixo do sinal seco (e junto com outros possíveis efeitos) para criar a sonoridade final desejada para a guitarra! 
 
Espero que meu leitor peça licença para sua mãe ou esposa para fazer esta experiencia de um re-amping no forno. Se não tiver forno, também pode partir para a geladeira, que será tópico do meu próximo post. A intenção é ampliar as possibilidades da sua paleta de timbres em futuras captações, encontrando um som mais original e criativo. Compare os resultados! Se quiser me mandar trechos curtos, você tem o meu email abaixo. Depois posso postá-los para que todos possam ouvir o resultado dos outros. Este exercício é um 'must' para os futuros técnicos, que deveriam saber produzir um cenário de re-amping. Então, o que está esperando? Vamos pra cozinha! 


Omid Bürgin é compositor, projetista acústico e produtor musical. Fundou a Academia de Áudio (OMiD Academia de Áudio), que oferece cursos de áudio, produção, composição e music business e dispõe de estúdios para gravação, mixagem e masterização. E-mail: omid@omid.com.br, Tel. (11) 2307.0707, Rua Cardeal Arcoverde 928, São Paulo.
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