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Revista Luz & Cena
Neste espaço, Enrico De Paoli fala de suas experiências e histórias em engenharia de música, estúdios e shows.
Fala também do mercado musical e fonográfico e de suas tecnologias.
Engordar a mix (ou a master)
Postado por Enrico De Paoli em 11/08/2016 - 13h00
Publicado em 11/8/2016 - 00h00

Taí um termo, ou uns termos, muito usados nos últimos muitos anos: "O som do fulano é 'gordão'"; "O som de válvula dá uma 'esquentada' boa"; "O compressor vintage deixa o som 'gigante'". E por aí vai... Se pensarmos que o que deixa o som grande é a adição de harmônicos, e que quase sempre eles surgem decorrentes de alguma compressão na dinâmica do áudio, proposital ou não, começamos a entendê-los e a olhar para eles com outros olhos. E, curiosamente, a ouvi-los com outros ouvidos.

Imaginemos o sinal mais puro do mundo, conhecido também como onda senoidal. Para quem chegou agora, a senoidal é representada não só graficamente, mas também no mundo real, como aquela ondinha pura como uma marola na água, e quando dizemos "pura", significa que, digamos, uma onda senoidal de 1 kHz (ou mil hertz, ou mil ondinhas em um segundo) só vai conter este som, 1 kHz, e nenhum outro. Sim, eu disse pura. 1 kHz é isso e nada mais. Ok... até que você alimente este sinal em um circuito valvulado, ou transistorizado, ou numa fita, ou, nos dias de hoje, na sua placa de som do computador, que contém naturalmente o preamp analógico, logo um cirtuito transistorizado seguido de um conversor AD (analógico para digital).

Ok, se alimentarmos esta onda ainda pura (senoidal) com mais volume do que este circuito aguenta, o "topo" da onda tocará no "teto" do circuito. Com isso, a onda que tinha o topo totalmente arredondado (característica nata da onda senoidal) passa a ter seu topo achatado ou clipado. A palavra "clip" em inglês significa "cortar". Ou seja, uma onda que tinha o topo redondinho, quando passa a ter este topo "clipado", passa a ter quinas. Uma onda que tem quinas é uma onda... quadrada! Sugiro que vocês procurem ouvir e comparar o som de uma onda "sine" com uma onda "square" (senoidal vs. quadrada). Imediatamente vocês notarão que o som da "sine" é puro e doce, e o som da "square" é nervoso e agressivo.

Existe um grande debate sobre quais harmônicos são "bons" e quais são "ruins" para o som. Fato é que, se lembrarmos que engenharia de música é o encontro da física com a arte, temos que, teoricamente, adicionar harmônicos num som puro é errado, mas artisticamente podemos, de fato, honrar o título desse artigo: engordar o som. Cada tipo de clipping, seja entrar com som alto num microfone valvulado, num preamp, numa fita magnética, num Pro Tools ou até num plug-in simulador vintage, vai te gerar harmônicos diferentes. O meu ponto aqui não é dissertar sobre a diferença sônica e origens dos harmônicos ímpares ou pares, ou da combinação deles, mas o fato de que os harmônicos nascem de um sinal comprimido, que, de uma forma boa ou má, altera o formato da onda, gerando outros sons no seu som já existente.

Ok... Estamos o tempo todo imaginando que estes tais harmônicos são adicionados na mix, no compressor vintage ou no plug-in que emula isso tudo. Mas não lembramos o mais básico de tudo: nós não costumamos gravar uma orquestra de ondas puras senoidais! Ou seja, um piano purinho, até muito antes de ser microfonado ou gravado, já contém inúmeros harmônicos em seu timbre. E o mesmo vale para um violão, e um contrabaixo, e por que não as cordas vocais? Microfona-se esses sons e o próprio microfone, dependendo de qual design eletrônico e qual o nível injetado nele, seguindo o sinal para o preamp, muito provavelmente estaremos adicionando algum volume de frequências que são harmônicos do timbre principal (fundamental) sendo gravado. Logo, temos harmônicos diversos misturados e presentes por toda a parte em nosso som. Muito bem...

Agora sim, estamos na mix, e aplicamos alguns tipos de compressores diferentes nos nossos canais, e... obviamente, os compressores comprimem, limitam, diminuem a dinâmica, a variação do volume do nosso sinal de áudio. E, então, nós aumentamos o ganho de saída desse compressor para reestabelecermos o volume do sinal... E, ao aumentar o volume da saida do compressor, adivinhem quem passa a soar mais no nosso som? Eles - os harmômicos. Nessa simples operação (comprimir e aumentar a saída), a gente diminui a diferença de volume entre o som e os harmônicos existentes ali dentro.

Logo, comprimir uma mix é um meio de fazer os harmônicos soarem mais. Mas, por que, quando comprimimos demais, o som fica "empastelado"? Não apenas porque precisamos, sim, de dinâmica no som da nossa música, mas também porque existe um equilíbrio musical e artístico entre um som puro demais e um som com muito mais harmônicos do que o necessário. E qual é o necessário? Essa parte os seus ouvidos têm que resolver junto com a música que eles estão mixando!

Acredite neles! E até mês que vem...


Enrico De Paoli é engenheiro de música e produtor. Conheça um pouco de seus discos premiados visitando o site www.EnricoDePaoli.com. Lá você também pode conhecer seus treinamentos particulares Mix Secrets.
Tags: mixagem
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