Lugar da Verdade
Improvisando com o Gate
Enrico de Paoli
Publicado em 02/01/2002 - 00h00
Desde o início do "Lugar da Verdade", a proposta foi fugir das regras e paradigmas. Este mês vamos usar o GATE de verdade. Vamos prestar atenção nas nossas necessidades, acreditar no que estamos ouvindo e usá-lo como uma verdadeira ferramenta de criatividade, fazendo força para esquecer aquele velho "bê-á-bá" que nos foi ensinado.
Na verdade, o gate não faz milagres. Como a tradução implica, ele é um "portão" onde tudo que está acima do nível estabelecido pelo "threshold" ou limiar, passa ou é ouvido. Todo o sinal que for mais baixo do que o nível estabelecido pelo "threshold", será ou completamente eliminado ou atenuado pelo valor do "ratio". Em 99% dos casos, vemos gates sendo usados apenas como hábito e não como necessidade. Principalmente em caixas de bateria. O problema de usar gates em gravações ou mixagens de shows (PA), é que não temos exata certeza do que o músico pode vir a tocar. Se ele ou ela resolver tocar notas com uma dinâmica muito baixa, adeus. estas notas correm sério risco de não serem ouvidas.
Um dos usos mais freqüentes do gate em caixas de bateria é para evitar que os outros instrumentos da batera não "vazem" para os efeitos usados nesta "caixa". O que acontece, é que os "ghost notes" (notas fraquinhas emitidas quando a baqueta toca a pele entre os tempos fortes) também ficarão de fora, o que é um grave problema. Por esse e outros motivos, eu não uso gates durante a gravação. A menos que esteja insertado na monitoração e seu efeito não esteja "indo" para a fita, e sim esteja sendo ouvido depois que o sinal retorna desta para a mesa. Então uma solução para esse caso do gate na caixa seria "insertar" o gate na mandada da mesa que vai para o gate e não na caixa em si.
O resultado é incrível... analisemos a situação:
· Não insertamos o gate no canal da caixa.
· O canal da caixa fica então livre para reproduzir tudo o que nele estiver gravado.
· Obviamente outros instrumentos como o hi-hat, bumbo e outros elementos da bateria serão ouvidos em volume mais baixo no canal da caixa. Não considere isso como sendo um problema.
· Use uma mandada de AUX para "mandar" o canal da caixa para uma máquina de reverb. Note que este reverb deverá estar sendo usado para este canal apenas.
· "Inserte" um gate entre a saída deste AUX na mesa e a entrada do reverb.
· Caso sua mesa não disponha de "insert" nas mandadas de auxiliares/efeitos, você pode conectar o gate fisicamente entre o AUX e o reverb.
· Calibre o gate de forma que apenas as caixas fortes passem por ele. Qualquer outra nota ou vazamento não deverá abrir o gate.
· Pronto. Resultado atingido. Note que o gate não estará bloqueando nada do que está sendo ouvido. O gate estará apenas interferindo no sinal que está indo para o reverb, de forma que os vazamentos, principalmente de "hi-hat" no canal da caixa, não sejam endereçados também para a máquina de reverb.
Outro uso muito útil do gate, envolve o uso do "side-chain". Em muitos gates o side-chain pode ser chamado de "key" ou "trigger". Esta entrada que fica escondida no painel traseiro dos gates é de uma utilidade incrível. Ela permite com que outro sinal qualquer conectado a ela, seja o sinal que efetivamente abrirá o gate. Note que o gate continuará a fazer efeito sobre o sinal conectado ao seu INPUT saindo pelo seu OUTPUT. O que o side-chain faz é apenas servir de uma espécie de "controle remoto" para que o sinal que está passando pelo gate, entrando pelo IN e saindo pelo OUT, seja controlado pelo sinal entrando no side-chain (ou key ou trigger). Complicado? Certamente vocês entenderão com o exemplo a seguir.
Imagine que você está mixando uma música onde você gostaria de usar o canal da ambiência da bateria bastante alto, para causar um som de "caixa" com bastante "sala"... Mas você não quer que mais nada da bateria seja influenciado por esse canal de ambiência... Muito simples:
· Insira um gate no canal da ambiência.
· Note que você terá uma certa dificuldade em fazer com que esse gate abra apenas quando a caixa tocar... provavelmente o som do bumbo também estará abrindo o gate.
· Então o objetivo é fazer com que o sinal do canal da caixa sirva de "controle remoto" para abrir o gate que está "insertado" no canal da ambiência.
· Faça com que o sinal da "caixa" chegue na entrada do side-chain desse gate de alguma forma...
· Lembre-se que se você endereçar a caixa para o side-chain do gate, após este sinal passar pelo "fader" do canal da "caixa", ou seja, sinal "pos-fader", caso você altere o volume desta "caixa" no decorrer da mixagem, você pode alterar a reação do gate.
· A melhor maneira a fazer é usar o sinal diretamente da "máquina" conectado a entrada do side-chain do gate.
· Outra possibilidade é usar um auxiliar vazio, em PRE-FADER, e endereçá-lo a entrada do side-chain.
· Se estiver experimentando isso em um sistema de computador, você pode usar um Bus em pre-fader, e no gate (plug-in) selecionar para que o side-chain seja feito pelo mesmo Bus.
· O resultado é que apenas quando a caixa tocar, este sinal vai fazer com que o side-chain abra o canal da ambiência...
· Então você pode ter um canal de ambiência servindo apenas para adicionar "sala" ao som da caixa, sem alterar a dimensão do resto da bateria.
Estes foram apenas dois exemplos para mostrar que tudo não passa de criatividade e uso das ferramentas para se atingir um som que reside em nossas cabeças.
Que seus sons se tornem realidades.
Enrico De Paoli é engenheiro de som de estúdio e PA. Discografia disponível em www.HitMixers.com. Contato para discos independentes: enrico@rio.com.br